quinta-feira, 13 de março de 2008

OBAMANIA

Pelo «Kontrastes 3.0» tenho-me dedicado particularmente às eleições americanas deste ano. Por esse mesmo motivo não vejo necessidade de repensar toda a corrida de cavalos por aqui. No entanto, parece essencial, à luz deste acontecimento, escrever umas notas sobre a «Obamania». Primeiro, porque Barack Obama pode vir a ser o próximo presidente dos EUA, sucedendo (tarde) a George W. Bush. Segundo, porque ele veio do nada e tornou-se num sucesso mediático.

Barack Obama entrou na corrida presidencial como um outsider, alguém que ao cabo de algumas semanas desistiria e juntaria o seu pequeno eleitorado ao eleitorado do favorito democrata. No entanto, num curto espaço de tempo, a lógica inabalável mostrou-se errónea. Barack Obama disputava com Hillary Clinton a preferência para a candidatura democrata. O braço-de-ferro tornou-se prato forte das eleições deste ano.

Desde os movimentos populares de contestação à guerra do Vietname, que não se via as camadas jovens tão empenhadas civicamente. Barack Obama personificou o sonho de uma América nova, aberta, global, dialogante, pacífica, cooperante. Uma América anti-imperialista.

Obama trás consigo uma carga simbólica que ultrapassa largamente a sua pessoa. Obama é um conceito novo: candidato negro, candidato jovem, candidato especial. Obama está a um passo de se tornar o special one da política internacional. Não é por acaso que José Sócrates e Luís Filipe Menezes começam a copiar o seu estilo. Curiosamente Obama poderá ter maior expressão enquanto sonho do que enquanto realidade. Derrotado será sempre um vencedor, nas cabeças pairaram: e se ...?

[João Ferreira Dias]


"OS BANCOS PRECISAM DE AUMENTAR OS SEUS LUCROS"

Se é inegável a preponderância da banca enquanto pedra basilar do funcionamento da economia que temos, sobretudo no que respeita ao tecido empresarial e à oscilação bolsista, começa a tornar-se demasiado óbvia a pele de carrascos que os bancos começam a vestir relativamente ao que definimos como classe média.
De carrascos e de coveiros, pois o aviso de que o título deste texto dá conta prenuncia o apertar do seu poderoso torniquete nas depauperadas (endividadas) condições financeiras das famílias que o negócio do crédito foi aos poucos tornando reféns.

A contradição entre os resultados fabulosos que em cada ano transpiram a saúde da banca (mesmo o BCP, em plena convulsão, mantém um nível de lucro apreciável) e o aparente desplante (vulgo lata) com que se defende a necessidade de os consolidar (leia-se esmifrar ainda mais o cidadão sem excedentes nem poupanças) salta à vista de qualquer leigo.
Para a generalidade da população mobilizada para combater a cada vez mais difícil batalha contra o fim do mês, o reclamar de lucros por parte das instituições bancárias que se traduzirá na revisão em alta dos spreads (os mesmos que baixaram ao ponto de viabilizarem compromissos hipotecários a um prazo de cinquenta anos, garantindo o endividamento antecipado da próxima geração) soa insultuoso.
E ameaça fazer disparar o número de vidas escangalhadas pela parceria entre a ganância bancária e a mania portuga de insistir em correr mais depressa do que os próprios pés o permitem.

De pouco adianta imputar responsabilidades a qualquer dos Governos que permitiram o fartar vilanagem da sedução consumista, sem qualquer controlo sério que pudesse evitar a proliferação dos excessos no contexto de uma luta desigual entre gestores ambiciosos, estrategas habilidosos e publicitários cada vez mais eficazes e o mexilhão do costume, o Zé Povo, incapaz de resistir à tentação perante o carro novo, o plasma ou a crónica de férias do vizinho.
E de nada vale denunciar a irresponsabilidade (na maioria dos casos simples ignorância ou incapacidade de lidar com as novas regras deste jogo sem lei) das famílias que aos milhares se foram empenhando e deixando arrastar pela enxurrada da euforia que a Europa dos ricos e a tentação a cada esquina facilitaram.

Os números não mentem e muitos pescoços já sentem a pressão da corda. E com famílias aos milhares a verem-se privadas dos bens que tinham como indicador do nível de vida que julgavam possível, os bancos não podem continuar a esticá-la.

É que o medo que se vai instalando aos poucos destas garras inflexíveis da dinâmica sanguessuga, o boca a boca dos caídos em desgraça cada vez menos envergonhados de a assumirem por existirem culpados flagrantes a apontar está em vias de criar uma reacção alérgica ao negócio desalmado que a banca cada vez menos conseguirá desmentir com a cosmética publicitária e outras.

A cama que os bancos farão se insistirem neste divórcio com a componente humana da actividade financeira, a voragem do lucro, será aquela onde se irão deitar não tarda.
É que cada vez mais se sente o apelo de trocar a ameaça dos balcões pela relativa segurança dos colchões.

E nessa cama específica não há lugar para caixas desempregados e para gestores de conta às moscas...

terça-feira, 4 de março de 2008

ISTO DOS BLOGUES COLECTIVOS


A blogosfera é um vida dentro de outra vida. Não há dúvidas. Mas não é um trabalho intelectual, é um hobby intelectual, isto porque a grande maioria daqueles que por estes lados vão escrevendo não retiram outros frutos que aqueles provenientes do reconhecimento (esse quem nem sempre vem). Se questionarmos grande parte dos bloggers convictos a maioria estaria disposta a blogar como modo de vida, mas infelizmente a blogosfera não lhes dá sustento. É por isso que é complicado manter um blogue, particularmente quando esse blogue é colectivo e reune autores de blogues individuais. Porque a vida não pára nem espera por nós, o blogue vai ficando.

Ao contrário do que possa parecer, este post não é de despedida, pelo contrário, é precisamente o oposto. O que quero é relembrar que este blogue é como um café onde nos reunimos, não precisa de ser todos os dias, basta cá virmos dar dois dedos de conversa. Isso é que é importante. O «Registo Provisório» é uma esplanada de dias soalheiros. Continuemos.

[João Ferreira Dias]