Nunca antes escrevi uma linha que fosse acerca desta senhora. Se hoje o faço é apenas para tentar redimir-me de tal omissão. E porque sinto que o assassínio de Benazir Bhutto marcará de forma indelével o futuro próximo deste mundo feio onde os cobardes se multiplicam para se dividirem em pedaços e arrastarem consigo, estilhaçada, toda a réstia de esperança na coragem cada vez mais desesperada dos verdadeiros heróis, os que não sobejam.
Se naquilo a que chamamos “ocidente” as mulheres capazes de atingirem uma posição cimeira são escassas e enfrentam uma resistência impossível de desmentir por parte do eterno masculino, a oriente a força e a capacidade necessárias para atingir qualquer poder suplantam aquilo que temos por mais exigente.
Nesse contexto, a figura de Benazir já possuía uma dimensão quase mítica. Com este trágico (mas previsível) desfecho, o impacto da passagem desta paquistanesa tenaz pelo mundo poderá fazer-se sentir de uma forma que nem o mais iluminado analista ousará vaticinar.
Chover no molhado seria referir aqui a preocupação inegável de todo um planeta com a instabilidade política e social numa potência nuclear. Sobretudo quando residem na nação pela qual Bhutto deu a vida talvez as mais débeis esperanças de conter o alastramento precisamente do fenómeno que este atentado letal representa.
A nova mártir do mundo islâmico, que não se reduz a facínoras suicidas, simbolizava em simultâneo o sonho democrático e a emancipação possível das mulheres no ambiente mais hostil para acolher tais veleidades combinadas.
A ameaça à sua integridade podia partir de fundamentalistas como de golpistas e só o futuro poderá desvendar quem, se apenas um dos lados, premiu (ou permitiu) este tresloucado gatilho.
E é nessa dimensão que desconhecemos as consequências póstumas da morte desta mulher especial que em vida lutou por valores tidos por universais neste lado morno da realidade que é a nossa.
A autoria e eventuais cumplicidades deste golpe de misericórdia nas hipóteses de estabilidade democrática no Paquistão irão ditar em boa medida os acontecimentos vindouros e ainda que o gang de Bin Laden reclame para si os louros, a reacção dos apoiantes de Benazir permite outro tipo de ilações.
Mas a mais evidente é a de que nesta perda irreversível os maiores derrotados serão sempre os próprios muçulmanos, cada vez mais privados dos poucos rostos que contradizem na opinião pública mundial a colagem do todo moderado às partes radicais que mancham, mesmo com o sangue dos seus, a imagem de uma maioria de pessoas normais com estas pinceladas abjectas de um grupelho composto por cada vez mais eficazes “artistas” na criação de buracos negros nos paredões da sua galeria alucinada do terror.
[shark]
sexta-feira, 28 de dezembro de 2007
TALIBANZAI
[repartições] Benazir Bhutto, Shark
quinta-feira, 27 de dezembro de 2007
frases de uma direitazinha irritante
Pedro Arroja, “Visão”, 27-12-2007
[João Ferreira Dias]
[repartições] João Ferreira Dias, Portugal Português
domingo, 23 de dezembro de 2007
UPS... É NATAL
[João Ferreira Dias]
[repartições] depressão quasi-natalícia, João Ferreira Dias
Festa da família?
Para começar: sim, a estética deste postal é uma nostalgia descarada do Misantropo Enjaulado. Pronto, agora vamos ao que interessa.Ora bem, uma vez que o blogue se encontra aparentemente em autogestão para as festas natalícias, tomei a liberdade de pedir a estas simpáticas candidatas a mães Natal (até podem ser sobrinhas, filhas ou primas afastadas do famoso personagem criado por uma bebida gasosa estadunidense cuja receita original incluía folha de coca, mas não é relevante o grau de parentesco das meninas nem os ingredientes da bebida) que me auxiliassem na pequena redacção de um postal de Natal para os nossos parcos leitores.
O Natal actual nada mais é que uma altura em que todos nós – confesso que até eu comprei uma estatueta do Senegal para oferecer à minha cara-metade – nos afogamos em dívidas de modo a podermos afogar em prendas aqueles que nos são mais queridos: familiares, filhos, namorada, esposa, até colegas de trabalho ou de escola/faculdade.
É certo que nem todos nos afogamos em dívidas, mas a esmagadora maioria da população além das dívidas “normais” (casa e carro) nesta altura acaba por sucumbir ao crédito ao consumo, uma artimanha com juros altíssimos que nem é devidamente regulada em Portugal.
O crédito ao consumo está tão na moda que, actualmente, até os bancos tradicionais o estão a praticar, não há muitos anos este género de crédito era monopólio apenas de agências financeiras.
Eu recordo-me de há muitos muitos anos (ok, nem tantos assim que eu ainda só tenho 3 cabelos brancos, mas é para criar ambiente), era eu um petiz, ainda recebia de prenda do meu avô paterno esculturas de madeira feitas pelo próprio, mantas tecidas pelas minhas avós (a materna e a paterna), bonecos de folha de milho da minha tia, guloseimas confeccionadas pela minha mãe, e creio que tudo isso era uma manifestação muito superior de carinho – já que estas prendas implicavam um esforço pessoal e um desejo criativo das pessoas que as criavam e, posteriormente, ofereciam – do que ir a um qualquer centro comercial da moda (e são cada vez mais) e comprar por um preço inflacionado uma porcaria inútil qualquer vinda sabe-se lá de onde e produzida em série numa qualquer fábrica.
Retornando à família, as condições de trabalho estão cada vez mais precárias e muitos agregados familiares vão passar o Natal separados uma vez que um ou mais elementos da família vão passar o Natal a trabalhar – está cada vez mais em voga o emprego por turnos nas empresas de prestação de serviços.
No meu caso dia 24 estou a sair às 24h do emprego, e no local onde trabalho já fui avisado que os últimos transportes públicos são às 21h, e existem milhares de pessoas na mesma situação que eu. A família está em segundo plano quando se trata de ganhar dinheiro para manter essa mesma família.
Enfim, um santo Natal para todos os nossos leitores e para os anarco-colegas aqui da casa. Um 2008 revolucionário se esta semana me faltar a inspiração para um postal de passagem de ano.
PS: Vejam a minha pequena homenagem a Giovanni Luigi Bonelli aqui.
[Flávio Gonçalves]
[repartições] Consumismo, depressão quasi-natalícia, Flávio Gonçalves, Natal
sexta-feira, 14 de dezembro de 2007
Repressão
Pois é, chegou a repressão assumida e, pelo que notei, a comunicação social não lhe tem prestado grande atenção: dentro de 90 dias estarão ilegalizados (ou exterminados) os PNR, PND, PCTP/MRPP, MPT, PPM, POUS, PDA e PH e creio que até o PEV (não me recordo de mais nenhuma força política pequena, mas podem emendar-me caso desejem), tudo muito democraticamente, claro, isto de eliminar partidos da oposição - mesmo num país em que o povo é indiferente às ideologias e vota sempre nos mesmos (PS e PSD) com o espírito de quem é apoiante do FCP ou do SLB não faça grande diferença.Não sei para onde se dirige este país, brevemente será aprovada mais uma lei repressora cortando as pernas inclusive aos partidos maiorzitos como o BE, PCP e CDS/PP no que diz respeito ao poder local, o objectivo supremo será a bipartidarização à lá Estados Unidos originando a que os militantes destes pequenos partidos sejam forçados a filiar-se nos PS e PSD ou - inclusive - a calarem-se para todo o sempre, certamente os mais mediáticos que verão as suas entradas nestes partidos vedadas (ocorrem-me os nomes do trio mais rebelde, Manuel Monteiro, José Pinto Coelho e Garcia Pereira) serão mesmo obrigados ao silêncio.
O 25 de Abril foi para isto? Para termos, daqui a uns anos, o dobro dos partidos do Estado Novo? (ou seja, 2 partidos, já que no Estado Novo só existia um). Qualquer país de Terceiro Mundo sairia às ruas em armas, mas em Portugal... olhem, isto não auxilia em nada a minha depressão natalícia, ainda por cima sem ordenado que me permita afogar as mágoas em consumismo desenfreado.
Se fosse o Hugo Chávez a fazer tal coisa, ui ui, que não se falaria de mais nada nas televisões e jornais que não focasse o regime repressivo e ditatorial da Venezuela, mas como se trata do Sócrates e duma lei que já veio do executivo do PSD (demonstrando que entre PS e PSD não existe diferença NENHUMA, cumprem os dois a mesma agenda) não é digno de repulsa nem apelidado de repressão nem de ditadura.
[Flávio Gonçalves]
[repartições] Flávio Gonçalves, Liberdade, Repressão
quarta-feira, 12 de dezembro de 2007
GALO DE BARCELOS?
O galo de Barcelos entrou numa nova batalha: a da certificação, como forma de o ícone nacional se proteger dos milhares de peças fabricadas por ano na China. A tentativa de lutar contra a ofensiva asiática, levada por um fabricante de Barcelos para o Oriente, que destruiu 60 por cento da produção local, não é nova. Em 2004, a Câmara de Barcelos promoveu uma tentativa de reconhecimento da olaria e figurado, um conjunto de trabalhos em barro onde se inclui o galo, mas não conseguiu mais do que um registo de marca genérico, que não deu uma certificação ao ícone.
Como podemos ver tudo é passível de ser jogado no campo dos interesses económicos e da defesa da identidade e do produto nacional, pode ser jogado mas a realidade é que saímos sempre a perder. Não tarda teremos nas nossas lojas (nossas salvo-seja, na realidade lojas chinesas) o renovado Galo Ching Chuang de Barcelos. Belos tempos os nossos.
[João Ferreira Dias]
[repartições] Estado, João Ferreira Dias, nem sei que vos diga...
quinta-feira, 6 de dezembro de 2007
UM SENTIDO DE ESTADO DE MIERDA
O palavrão não é meu mas de um indivíduo que (só Deus saberá como e porquê) calhou tomar o poder num país produtor de petróleo e só por isso capaz de catapultar um cromo como Chavez para as parangonas mediáticas à escala planetária.
Depois da triste figura que motivou a célebre (e oportuna e justificada) intervenção do rei Juan Carlos, Chavez protagoniza mais uma deselegante exibição da sua política de taberna quando se dirige à oposição (que, ele próprio legitima-se nessa base, o derrotou em eleições democráticas) como tendo obtido una victoria de mierda (sic).
Com esta exibição de grosseria e de mau perder, o presidente da (cada vez mais) república das bananas venezuelanas tirou com a mão da estupidez aquilo que a da sensatez oferecera quando reconheceu a derrota numa primeira intervenção.
Entre as mais importantes diferenças que distinguem, ou devem distinguir, o líder de uma nação e os cidadãos comuns, o Sentido de Estado destaca-se como imperativo moral. E o de Chavez não faz sentido nenhum, pois a birra do indivíduo sobrepõe-se ao interesse colectivo que lhe compete, no cumprimento da função institucional que assumiu, acautelar em primeira instância.
Confesso que lhe achei piada pela irreverência com que se dirigia ao seu homólogo norte-americano, quando ainda desconhecia os contornos da sua ascensão ao poder e da personalidade excêntrica e irresponsável que o caracteriza.
Para mim tratava-se de um homem de esquerda, eleito democraticamente e capaz de reavivar um conjunto de ambições para aquela zona do mundo tão fustigada por ditaduras sangrentas e golpes militares por sistema.
Agora vejo-o como um gorila sem maneiras e, no que concerne ao perfil para o cargo que ocupa, absolutamente incapaz de governar um país daquela dimensão.
Ou de outra.
O mínimo que se pode exigir a um Chefe de Estado é o respeito pela dignidade do cargo e Chavez em muito a enxovalha com os seus excessos e birras. Na pele de um venezuelano jamais poderia rever-me num líder assim, capaz de envergonhar o meu país e, tudo indica, de o deitar a perder em matérias gravíssimas como o normal funcionamento da Economia, da Política Externa e da liberdade de expressão.
Qualquer um destes aspectos é fulcral para a vitalidade de uma democracia moderna.
E eu dou comigo a estranhar a ausência de mais um golpe militar (ou mesmo uma guerra civil) num país da América Latina, quando me recordo do exemplo de Allende que, por muito menos, ofereceu ingénuo a Pinochet uma janela de oportunidade escancarada.
[Shark]
[repartições] Hugo Chavez, No Te Callas, Shark
segunda-feira, 3 de dezembro de 2007
O RENASCER DA MÁQUINA DO KREMLIN
A máquina de ilusão russa é transversal a todos os sectores sociais. As artes visuais e perfomativas continuam ao serviço da máquina estatal. Tal como já o fizera o KGB, os actuais Serviços Federais de Segurança distinguiram "os trabalhos de artes visuais, cinema, literatura e jornalismo que criem, com elevado sentido artístico, uma imagem positiva do agente de segurança do Estado". A manipulação através das artes continua uma realidade política actual e a Rússia nunca deixaria de as usar como arma de propaganda e, porque não dizer, como instrumento de manipulação da verdade histórica.
A juntar à questão artística, ainda na área da manipulação histórica, veio a polémica em torno dos manuais escolares -- porque manipular desde cedo é a melhor forma de criar seguidores cegos -- acusados de reescrever a história russa e de enaltecerem a figura de Putin e a sua "democracia soberana".
Para que a máquina ficasse completa e tivesse uma amplitude extrema junto das populações, o governo de Putin controla os meios de comunicação social, em especial as estações de televisão, responsáveis pela informação de 85 por cento da população russa. A este controlo mediático junta-se-lhe a elite intelectual pró-Putin, as organizações de juventude (estaremos a falar do renascer das juventudes fascistas?) e a poderosa Igreja Ortodoxa Russa. Aos media tradicionais alia-se uma intensa blogosfera pró-governo, que divulga incessantemente o projecto do Kremlin. Essa mesma Igreja Ortodoxa é responsável por um discurso teológico que aproxima o poder religioso perigosamente do poder político. Num discurso emitido pelos canais nacionais russo, o gabinete de relações externas do patriarcado de Moscovo afirmou que existem valores acima da liberdade e da democracia, indo mais além, ao anunciar que a Igreja rejeita a ideia de que os valores humanos estejam acima do bem-estar social [leia-se acima da nação]. Mais. Num manifesto de propaganda do «Projecto Rússia», fontes oficiais citaram São João de Kronstadt, um dos mais célebres clérigos ortodoxos do século XIX, dizendo "o inferno é uma democracia, o céu é um reino".
A classe política siloviki -- formado por antigos veteranos de agências de segurança russas -- juntamente com o seu presidente Vladimir Putin, construiram as bases que levaram à reeleição de Putin em 2004. Como escreve Serguei Kovalev, activista dos direitos humanos, num artigo publicado na «New York Review of Books»:
o país ficou sujeito a uma incessante e omnipresente propaganda muito mais hábil, eficaz e abrangente do que os soviéticos alguma vez imaginaram (...) os media têm persistentemente inculcado imagens de Putin como um governante carismático a liderar um renascimento nacional, enquanto o 'putinismo' é mostrado como a garantia de estabilidade e ordem". [via «Público»]
O resultado disto está bem visível na vitória do partido de Putin, «Rússia Unida», nas legislativas russas, que tiveram lugar ontem.
[João Ferreira Dias]
[repartições] democracia, João Ferreira Dias, Justiça, Liberdade