A tomar o fio à meada, o fio que vai ditando as novas forma e ordem mundial, acabo a pensar no publicitado por Al Gore e na polémica em torno do Nobel e das confusões geradas pela avaliação do seu trabalho pelo colégio académico britânico.
Na verdade, temos que partir da premissa incontornável de que Al Gore é, antes de mais, um político e que, como tal, tenta sempre rentabilizar politicamente a sua actividade. Não considero, no entanto, que grande mal venha daí ao mundo, conforme nos querem fazer parecer algumas vozes neo-qualquer-coisa.
A actividade política não - mais importante: não deve ser - alheia aos anseios humanos. Deve, enquanto tal, cuidar de produzir, difundir e fazer discutir ideias que interessem ao cidadão comum e tentar alertar as populações para as condições que, ocultas por detrás das necessidades diárias, escapam à reflexão imediata. Esta actividade, sendo essencialmente de comunicação, reveste-se de especiais necessidades quanto á forma de difusão adoptada e não é demais utilizar as figuras públicas que possam auxiliar a essa difusão, bem como não é demais utilizar os meios e tecnologia mais capazesara atingir os seus objectivos comunicacionais.
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É sob esta perspectiva que vejo o filme e o prémio de Al Gore. O que o homem fez foi nada mais que alertar consciências para o drama que se avizinha, que está já em curso, e cuja antevisão não é nova. Desde há muito que estudiosos e cientistas vêm alertando para o facto e é quase certo que não serão estes quem estará preocupado com a visibilidade dada a Gore, antes pelo contrário, devem estar gratos pela difusão das suas ideias.
A realidade do mundo actual é uma enorme bolha de convulsões pronta a estourar. Externa a essas convulsões está uma Terra, um planeta à beira de um ataque de nervos que está já sobrepovoado, que tem uma atmosfera em estado caótico, que vê os seus recursos a acabar.
Embora os poderes mundiais tentem, por um lado, "preocupar-se" com o assunto, ao passo que, por outro lado, tentam desmistificar o aquecimento global, este existe e está cá para ficar a não ser que esses mesmos poderes abdiquem de uma fatia dos seus rendimentos para o travarem.
Enquanto isso não acontece, são esses mesmos poderes que fazem alarde das conclusões do colégio britânico que aponta erros na apresentação de Gore, acolitados por todos os neo-liberais e neo-cons [de direita e suposta esquerda], cujas visões assentam principalmente na manutenção dos seus interesses industriais e comerciais.
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Ao que se assiste, na realidade, é à tentativa de delapidar uma chamada de atenção para o assassínio de um planeta motivado pela ganância e pelo poder que atropelam tudo e todos sem olhar para nada. Chamar ao púlpito cientistas que não corroborem uma opinião de outros cientistas é uma estratégia desde há muito utilizada para contra-informar e, em grande parte das vezes, é a História que trata de julgar esses pseudo-julgamentos.
O que Al Gore faz na sua apresentação é apenas um alerta para o que poderá passar-se durante a vida dos nossos filhos. Os supostos erros científicos, a existirem, não retiram, ainda assim, a importância de que tal chamada de atenção se reveste: ou abrandamos agora ou isto explode e leva tudo.
Os julgamentos científicos são o que são. Talvez Galileu não tenha dito "no entanto ela move-se" e talvez a Igreja e os cientistas da época pensassem sinceramente que a sua teoria não era mais que uma heresia. Talvez seja o que se passa agora com a exposição de Al Gore.
E agora, como na época de Galileu, não faltam os que se babam vociferando "à fogueira!", enquanto vão retirando os tostões do cofre, não vá a Terra girar mesmo em torno do Sol e necessitarem do dinheiro para especular noutro planeta qualquer ou para pagar a bula da salvação.
Por outro lado, talvez Al Gore esteja mesmo a aproveitar a exposição para tentar consolidar uma imagem que lhe traga poder político mas, num mundo de informação como aquele em que vivemos, se não forem os poderosos e os aspirantes a poderosos a fazê-lo, quem mais há-de tratar do assunto?
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Entretanto, estou para ver quando sairá um documentário que contraponha as ideias de Al Gore e se, quando saír, se haverão colégios que atribuam erros às teorias apresentadas.
Enquanto isso não aparece, podemos apenas ir observando os incêndios na Califórnia, os tsunamis no Pacífico, o degelo dos glaciares, o canal que se abre entre o Atlântico e o Pacífico via pólo Norte, a subida das águas, a subida das temperaturas - enquanto que obscuros poderes políticos, militares, religiosos, científicos e académicos de degladiam por mais uma fatia do animal agonizante.
Como digo ao meu filho, "está na altura de emigrar para o Norte e esperar lá por um autocarro para outro planeta".
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