quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Adiante!



Continuando a discussão por aqui, na falta de um encontro pessoal, acho curioso o seu esforço em encontrar essas ligações (por acaso ainda nem estava a par da publicação do último boletim do AAARGH em língua portuguesa, o Serge Thion aparentemente passa tempo quanto baste na blogosfera portuguesa).

Como refere o mundo virtual mantém muita coisa, como isto e isto e ainda o meu trabalho aqui (consultar documento referente a 2005) ou os meus artigos aqui (uma agência noticiosa africana que aparentemente não me considera tão "racista" e "fascista" quanto isso, na primeira quinzena de Novembro marcaram-me uma entrevista com uma banda rock cubana e juntamente com Agência Cubana de Notícias - da qual somos parceiros - convidaram-me para participar num futuro encontro internacional de imprensa alternativa; sei que Cuba não é libertária, mas ainda menos será "fascista" ou "racista").

Não lido já com revisionismo, e fiquei na dúvida se essa colecção de "provas" não será do interesse da Polícia Judiciária, já que ao abrigo da nova lei de "discriminação racial" (lei tão vaga no que poderá constituir uma infracção que acaba por interferir na liberdade de expressão). Sugiro que seja um democrata exemplar e faça queixa de mim às autoridades competentes, se eu for preso por algo que disse e escrevi certamente que me sentirei muito mais sensibilizado para com a democracia que o meu caro colega tanto defende, se calhar uns tempos em Caxias até me fariam bem na época festiva.

Não me considero "fascista" e muito menos "racista", portanto pode estar descansado. E agora, com sua licença, vou ver o Kull na TVI (uma personagem de Robert E. Howard). Adiante?

[Flávio Gonçalves]

A Responsabilidade de Manter um Blog

O título poderá parecer um pouco estranho à grande maioria do público e, infelizmente, à grande maioria dos autores. Mas, como hei-de tentar expôr mais adiante, não é tão exagerado assim.Mas não queria iniciar este artigo sem antes tecer algumas considerações acerca do que o motiva.

Este post tem origem na caixa de comentários ao artigo do Flávio Gonçalves [que, curiosamente, apagou o acesso ao seu perfil via Admirável Mundo Novo] , "É possível ser libertário num mundo totalitário?", onde apresento as minhas dúvidas acerca da realidade anarco-libertária do seu autor por saber das suas colaborações em blogs de extrema-direita e de ideologia neo-nazi. São dúvidas legítimas se considerarmos que os artigos publicados no Registo Provisório devem, no mínimo, apresentar-se de forma congruente e coerente ao público, coisa que tento praticar em outros blogs onde escrevo.
O facto de o Flávio Gonçalves escrever o que escreve nos locais onde diz escrever [ver caixa de comentários], e de ter pertencido a diversas facções político-partidárias ou coisa assim, segundo ele, durante os seus primeiros anos de vida [por volta dos 15], não invalida outros escritos que ele tem. E, das duas uma: ou é muito, mesmo muito inocente e, apesar da sua muito boa vontade, anda enganado, ou então aquioutra coisa.

Poderia continuar por aí fora, de link em link, de declaração em declaração, mas não o farei, por dois motivos: para não monopolizar o espaço com um tema apenas; pela incerteza óbvia de quais escritos poderão ser realmente imputados ao Flávio Gonçalves.

Assim, creio chegada a altura de passar ao tema principal do post:


A RESPONSABILIDADE DE MANTER UM BLOG

Um blog existe pela necessidade de comunicação. Embora possamos falar de blogs pessoais, estes são-no por reflectir a opinião do autor, de um prisma, esse sim, pessoal. O blog, em si, não é pessoal. É público e destina-se ao público. É paradoxal [e falso] "escrevermos umas coisas para nós próprios" num blog. Se o quiséssemos fazer, compravamos um diário daqueles com cadeado e tudo e guardávamo-lo num cofre.

O que está escrito num blog, fica-o para a eternidade da Rede. Desenganem-se os que pensam que, porque apagaram algo, isso desapareceu. Uma das leis que aprendi na net é que "Na Internet, nada desaparece, nada se transforma".

Pessoalmente, não abdico do meu direito, por vezes dever, de mudar de opinião. De cada vez que o faço, faço-o com o que considereo um mínimo de decência: "Eu digo isto, contrariamente ao que escrevi em tal sítio e em tal data". Não creio, no entanto, que seja uma "condição de honestidade e transparência" fazê-lo. Cada um é como cada qual.

As palavras escritas neste suporte tendem a ser tomadas levianamente, pelo menos por aqueles que não compreendem o esforço de manter um blog. Por outro lado, tendem a ser manipuladas por muitos dos que compreenderam já o alcance deste meio de comunicação. E esses sabem muito bem como fazê-lo: Ferramentas SEO para os seus blogs, links, comentários, palavras-chave, simbologia, atc., são alguns dos seus artifícios.

Quem mantém um blog não é somente responsável pelo que escreve. É responsável pelos escritos dos seus convidados e pelo que aparece na sua caixa de comentários, duas coisas que, em última análise, estão debaixo da sua alçada. Deve estar atento às repercussões do que lê nos motores de busca e em outros blogs. Deve estar atento à escolha semântica e à semiótica. Deve estar atento ao "respirar" do blog.

É por isso que não faço confusão entre a defesa da liberdade de expressão e a divulgação de certos ideiais. A minha liberdade de expressão é tanta quanto o for a minha liberdade de o poder expressar e, por isso, devo estar atento.

O facto de ser alguém que defende a liberdade de expressão - que o sou - não me impede de estar atento às movimentações que um dia a poderão aniquilar. As tiranias, mesmo as mais repressivas e violentas, começam quase sempre em nome da liberdade e da defesa do trabalhador oprimido e explorado.

A responsabilidade de manter um blog prende-se com a nossa responsabilidade para com a sociedade. Prende-se, se quisermos, com a assinatura que queremos deixar no mundo, com aquilo que queremos deixar em cache um dia que partamos. Prende-se com a capacidade que temos de comunicar, discutir, partilhar e, muito importante, influenciar o pensamento dos outros, ser influenciado pelo deles.

E isso, caros amigos, é muito importante.
E não, não vou embora. Já desabafei!
Abraços a todos.





terça-feira, 30 de outubro de 2007

VAMOS LÁ VER!

A propósito do texto publicado aqui pelo Flávio Gonçalves -- sempre pronto a destabilizar a normalidade filosófica, o que quer que isso seja -- e que suscitou o comentário do amigo Carlos José Teixeira, aproveito para fazer um ponto de situação.

1. O mundo é realmente um lugar totalitário uma vez que a maioria detém a escolha mas é a minoria que detém o poder, e neste sentido governa como diz o FG em "lobby". No entanto, é preciso ter cuidado não com o que diz mas com a noção real das coisas. É óbvio que a democracia tem os seus defeitos -- basta termos o PM que temos -- mas não deixa de ser o melhor dos sistemas políticos actuais. Outras formas de governação resultaram sempre em pesar para o povo e as liberdades individuais ficaram sempre comprometidas. Neste sentido demos um salto qualitativo importante, embora não seja um salto assim tão grande já que os gregos haviam experimentado uma Democracia parcial.

2. A liberdade de expressão não deve nem pode ser restringida sob pena de cairmos numa censura disfarçada por linhas editoriais ou numa censura real de regime autoritário. Da mesma maneira que a liberdade de expressão não deve ser usada de forma leviana servindo assim de capa para ofensas baratas, nem deve albergar atitudes que atentem contra direitos individuais e direitos colectivos. É isto que CJT diz ao escrever: "Não podemos confundir a defesa da liberdade de expressão com a apologia destas teorias". Estou de acordo.

3. É verdade sim senhor, Flávio, que as nossas sociedades continuam moralmente falsas puritanas, nenhum pai rico quer a filha a namorar com um rapaz pobre. Há liberdade religiosa, por exemplo, desde que essa liberdade servia os interesses da Igreja -- até quando terei de esconder a minha religião?

4. Em relação à tua defesa da revisão do Holocausto creio que compreendes que se trata de uma atitude anti-semita e de cariz meramente provocatório. O mais documentado acontecimento da História não é uma criação dos estúdios de Hollywood. Ainda que os números das vítimas do holocausto seja inferior ao referido -- como os revisionistas afirmam -- não deixa de ser uma negociação de semântica o que pretendem fazer. Não vamos negar o óbvio sob pena de repetirmos erros do passado.

5. Caro CJT não creio que o abandono da Vox Blogs por incompatibilidade com o FG tenha sido a melhor solução. Aliás se eu tivesse feito sair o FG do falecido blogue estaria a atentar contra a liberdade de expressão. Mais, para mim parece-me que ao sermos capazes de debater serenamente as questões aqui no «Registo Provisório» estaremos a dar uma qualidade acrescida ao nosso espaço. Melhor, estaremos a criar um blogue diferente dos demais, onde a uniformidade de opiniões torna os mesmos monocórdicos. Portanto, mãos à obra, que é o mesmo que dizer dedos às teclas e toca a discutir positivamente. O separador já está criado.

[João Ferreira Dias]


COM QUE DINHEIRO?

Vem aí o feriado de 1 de Novembro e com ele o fim-de-semana prolongado. O português que parece sobreviver a todas as crises económicas com uma capacidade de multiplicar o dinheiro, prepara-se para umas mini-férias com destinos coloridos no velho continente. Segundo o Diário Digital a procura é muito alta principalmente para Madrid, Barcelona, Roma e Paris. Capitais apetecíveis, sem dúvida, mas resta perguntar -- coisa que não se faz -- com que dinheiro irão viajar os portugueses?

Como já referi o tuga multiplica o dinheiro subtraindo na alimentação, divindo as dívidas por mensalidades por pagar, tudo em nome de uma vida de fausto exterior. Se o insucesso escolar a matemática é elevado, nas contas do dia-a-dia o português é um milagreiro.

[João Ferreira Dias]

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

É possível ser libertário num mundo totalitário?

Tendo um já longo e pesado passado de idealismo político tenho notado que, de ano para ano – ou mesmo de dia para dia, é cada vez mais difícil conseguir-se ser verdadeiramente libertário sem atrair atenções negativas, já que o ideal libertário comporta que se defenda acima de tudo uma liberdade de expressão que se encontra cada vez mais ameaçada quer por leis restritivas criadas pelos governos nacionais ou impostas por Bruxelas, quer pelo obscurantismo ideológico que pintou o mundo a preto e branco, dividido em “bons” e “maus”, que resulta em que os libertários a sério – que defendem uma liberdade de opinião e pensamento absoluta para todos – sejam acusados umas vezes de “fascistas” e outras de “comunistas”, dependendo do alinhamento político (divisão direita/esquerda) de quem discorda com determinado ponto de vista.

No exemplo português temos cada vez mais decisões governamentais que são aprovadas à margem da opinião popular (os casos mais recentes são a Flexisegurança e o Tratado Europeu), temos uma entidade reguladora da comunicação social – coisa que não me parece propriamente democrática, e nas universidades, jotas políticas e colunas de opinião dos jornais testemunhamos aquilo a que Joaquim Letria em tempos chamou de “auto censura”, em que determinadas opiniões não são propositadamente tornadas publicas pelos seus autores com o receio de parecer mal ou de suscitar uma reacção negativa por parte dos professores, editores ou mesmo de determinado sector público organizado em algum lobby.

Já nem é necessária uma polícia política: actualmente as pessoas censuram-se a si mesmas de modo a evitar complicações. E quando não o fazem, acabam por ceder a pressões dos próprios familiares, cônjuges ou amigos mais chegados.

Será que actualmente testemunharíamos novamente, como aconteceu no passado, a uma defesa acérrima por parte do libertário Noam Chomsky à liberdade de expressão académica de Robert Faurisson (revisionista do Holocausto)?

Será que hoje em dia para ser democrático e libertário é necessário ser intolerante para com pontos de vista que não nos agradam, tornando-se os democratas em ditadores? Em pleno século XXI ainda temos direita que ache que os comunistas são todos maus e esquerda que ache que os outros que discordam dela são todos fascistas e, portanto, maléficos por natureza?

À medida em que as sociedades se tornam cada vez mais controladas e autoritárias, não se tratando já duma questão de capitalismo versus comunismo e nem sequer de esquerda versus direita mas tão só de cidadãos que defendem a liberdade e de Estados que cada vez mais a tentam negar, tudo mui democraticamente e para segurança da população em geral, não seria já altura de ultrapassarmos certos dogmas que nos forçam a ignorar os outros seres humanos tal como são?

Eu sinto na pele que cada vez mais é difícil manter-se fiel a um ideal libertário quando todos em nosso redor, não só o Estado, se escudam em superioridades morais abstractas que os tornam a eles numa autêntica polícia política autoritária, acusando e atacando qualquer um que recuse fazer parte do rebanho politicamente correcto, tudo o que não seja preto ou branco por natureza é pintado à força de modo a caber no ambiente totalitário actual, mais auto infligido que imposto – uma vez que este ambiente se foi criando tão lentamente, mas tão lentamente, que mal demos por ele… mas agora afecta-nos a todos.

Ainda vamos sobrevivendo e resistindo, mas até quando?

[Flávio Gonçalves]

sábado, 27 de outubro de 2007

SEXUALIDADE CRISTÃ

A Exposição «Seduced: Art and Sex from Antiquity to Now» [site] em Londres, é uma excelente oportunidade de discutir o falso moralismo e pudor que vigora nas nossas sociedades. Como se pode ver e perceber através da excelente edição do Público, as pinturas em vasos gregos mostram cenas explícitas de sexo oral e outras variantes da sexualidade. Numa altura em que a Indústria Pornográfica é da 7ª Arte a mais lucrativa é importante perceber por onde andámos nos últimos 2000 anos. Se na Antiguidade a sexualidade era tema recorrente e o prazer sexual uma coisa natural, de onde nos vem este pudor? Essencialmente, continuamos revestidos por uma capa de moralidade cristã que cobriu o ocidente por mais de cinco séculos de obscurantismo e fervorosidade cristã. O pecado, o sexo para fins unicamente reprodutivos criou-nos uma relação difícil com o prazer sexual. É bom mas é pecado, mas que era bom já sabiam os padres moralizadores. Há que recuperar a relação aberta com o debate sexual e com a normalidade dos comportamentos e dos instintos sexuais. Numa época de liberalismos e liberdades não sejamos tão religiosos. Sob "pecado" de sermos medievais.

[João Ferreira Dias]

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Das Verdades Inconvenientes

A tomar o fio à meada, o fio que vai ditando as novas forma e ordem mundial, acabo a pensar no publicitado por Al Gore e na polémica em torno do Nobel e das confusões geradas pela avaliação do seu trabalho pelo colégio académico britânico.
Na verdade, temos que partir da premissa incontornável de que Al Gore é, antes de mais, um político e que, como tal, tenta sempre rentabilizar politicamente a sua actividade. Não considero, no entanto, que grande mal venha daí ao mundo, conforme nos querem fazer parecer algumas vozes neo-qualquer-coisa.
A actividade política não - mais importante: não deve ser - alheia aos anseios humanos. Deve, enquanto tal, cuidar de produzir, difundir e fazer discutir ideias que interessem ao cidadão comum e tentar alertar as populações para as condições que, ocultas por detrás das necessidades diárias, escapam à reflexão imediata. Esta actividade, sendo essencialmente de comunicação, reveste-se de especiais necessidades quanto á forma de difusão adoptada e não é demais utilizar as figuras públicas que possam auxiliar a essa difusão, bem como não é demais utilizar os meios e tecnologia mais capazesara atingir os seus objectivos comunicacionais.
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É sob esta perspectiva que vejo o filme e o prémio de Al Gore. O que o homem fez foi nada mais que alertar consciências para o drama que se avizinha, que está já em curso, e cuja antevisão não é nova. Desde há muito que estudiosos e cientistas vêm alertando para o facto e é quase certo que não serão estes quem estará preocupado com a visibilidade dada a Gore, antes pelo contrário, devem estar gratos pela difusão das suas ideias.
A realidade do mundo actual é uma enorme bolha de convulsões pronta a estourar. Externa a essas convulsões está uma Terra, um planeta à beira de um ataque de nervos que está já sobrepovoado, que tem uma atmosfera em estado caótico, que vê os seus recursos a acabar.
Embora os poderes mundiais tentem, por um lado, "preocupar-se" com o assunto, ao passo que, por outro lado, tentam desmistificar o aquecimento global, este existe e está cá para ficar a não ser que esses mesmos poderes abdiquem de uma fatia dos seus rendimentos para o travarem.
Enquanto isso não acontece, são esses mesmos poderes que fazem alarde das conclusões do colégio britânico que aponta erros na apresentação de Gore, acolitados por todos os neo-liberais e neo-cons [de direita e suposta esquerda], cujas visões assentam principalmente na manutenção dos seus interesses industriais e comerciais.
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Ao que se assiste, na realidade, é à tentativa de delapidar uma chamada de atenção para o assassínio de um planeta motivado pela ganância e pelo poder que atropelam tudo e todos sem olhar para nada. Chamar ao púlpito cientistas que não corroborem uma opinião de outros cientistas é uma estratégia desde há muito utilizada para contra-informar e, em grande parte das vezes, é a História que trata de julgar esses pseudo-julgamentos.
O que Al Gore faz na sua apresentação é apenas um alerta para o que poderá passar-se durante a vida dos nossos filhos. Os supostos erros científicos, a existirem, não retiram, ainda assim, a importância de que tal chamada de atenção se reveste: ou abrandamos agora ou isto explode e leva tudo.
Os julgamentos científicos são o que são. Talvez Galileu não tenha dito "no entanto ela move-se" e talvez a Igreja e os cientistas da época pensassem sinceramente que a sua teoria não era mais que uma heresia. Talvez seja o que se passa agora com a exposição de Al Gore.
E agora, como na época de Galileu, não faltam os que se babam vociferando "à fogueira!", enquanto vão retirando os tostões do cofre, não vá a Terra girar mesmo em torno do Sol e necessitarem do dinheiro para especular noutro planeta qualquer ou para pagar a bula da salvação.
Por outro lado, talvez Al Gore esteja mesmo a aproveitar a exposição para tentar consolidar uma imagem que lhe traga poder político mas, num mundo de informação como aquele em que vivemos, se não forem os poderosos e os aspirantes a poderosos a fazê-lo, quem mais há-de tratar do assunto?
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Entretanto, estou para ver quando sairá um documentário que contraponha as ideias de Al Gore e se, quando saír, se haverão colégios que atribuam erros às teorias apresentadas.
Enquanto isso não aparece, podemos apenas ir observando os incêndios na Califórnia, os tsunamis no Pacífico, o degelo dos glaciares, o canal que se abre entre o Atlântico e o Pacífico via pólo Norte, a subida das águas, a subida das temperaturas - enquanto que obscuros poderes políticos, militares, religiosos, científicos e académicos de degladiam por mais uma fatia do animal agonizante.
Como digo ao meu filho, "está na altura de emigrar para o Norte e esperar lá por um autocarro para outro planeta".
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quarta-feira, 24 de outubro de 2007

O REDESENHAR DAS NOVAS FRONTEIRAS

A propósito do brilhante post do Shark -- post anterior -- no qual, a dada altura, ele escreve:
Até porque isto das alianças já mostrou bem o quanto possuem de precário quando entram a jogo questões ligadas ao apelo nacionalista, aos ódios mal resolvidos ou a factores tão imprevisíveis como, por exemplo, o controlo do curso dos rios em períodos de seca prolongada (como no futuro mais próximo se prevê acontecerem com frequência). [ negrito meu]
Ocorreu-me que caminhamos a passos largos para a construção de novas identidades geográficas que originarão um redesenhar das fronteiras tradicionais, reposicionamento esse motivado pelos factores naturais, nos quais, como referiu o Shark, os cursos dos rios terão particular expressão. Isto é reforçado se tivermos em linha de conta que ao longo da História Universal as civilizações foram sendo construídas às margens de grandes rios dos quais se tiraram a tão essencial água para a sobrevivência, a pesca e dos quais se fizeram redes de comunicação -- os rios foram as primeiras estradas. Neste sentido, a perda desta fonte vital que é a água em abundância estará não só a subtrair toda a historicidade humana como ainda -- e bem mais grave -- estará a colocar em causa o futuro da humanidade. É bastante provável que as futuras guerras sejam motivadas pelo controlo de recursos naturais e a água venha a ter a mesma importância económica que tem o petróleo, estaremos no futuro a falar de um ouro cristalino em detrimento do ouro negro.

[João Ferreira Dias]

AMIGOS PORREIROS

Sensibilizou-me a prontidão com que o Presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, exprimiu a solidariedade corporativa dos 27 (por ora) grandes amigos, cuja relação acaba de ser consolidada e devidamente apregoada aos sete ventos mediáticos que sopram por esse mundo fora, relativamente à Turquia e suas movimentações de tropas na fronteira do Curdistão iraquiano.
É bonita, esta extensão da camaradagem da União aos seus potenciais futuros integrados.

Contudo, está em causa uma incursão militar em território curdo encravado numa das zonas mais sensíveis do planeta em termos de alastramento de um conflito. E o passado não esconde as cicatrizes que o ódio à maior nação sem território do planeta já deixou nas memórias e nas consciências dos protagonistas de chacinas que, aliás, serviram de pretexto mais destacado para a execução de Saddam Hussein.
Está em causa mais um acto de “legítima defesa” por parte de um exército poderoso contra rebeldes a quem veste sempre bem a pele de terroristas quando surgem os erros de cálculo que bombardeiam populações civis.

Por quão comovente se revele a costela solidária do Velho Continente abraçado com cada vez mais força à realidade de uma federação, as palmadinhas nas costas de quem há pouco tempo condenou à morte o líder dos curdos (salvo à tangente pelo gongo do pudor europeu) e deixou bem claro ao longo do diferendo com a Grécia em torno da questão cipriota o calibre das suas reacções hostis soam levianas. E indiciam uma espécie de luz verde europeia em contraponto ao cartão amarelo que os americanos, pouco interessados em mais escaramuças no seu novo e irrequieto feudo combustível, haviam exibido nas palavras do seu desastrado timoneiro.

Tudo isto assume um contorno preocupante, até porque é óbvio o divórcio entre os extremistas curdos que tentam forçar a guerra e a maioria da população que alegam representar. Um pouco como acontece com a Al-Qaeda relativamente ao todo islâmico de que a minoria fundamentalista se arvora porta-voz.
E por isso não concordo com o consentimento tácito da UE a uma mais que provável incursão dos turcos no norte do Iraque.

Até porque isto das alianças já mostrou bem o quanto possuem de precário quando entram a jogo questões ligadas ao apelo nacionalista, aos ódios mal resolvidos ou a factores tão imprevisíveis como, por exemplo, o controlo do curso dos rios em períodos de seca prolongada (como no futuro mais próximo se prevê acontecerem com frequência).
Nesse contexto, o apoio a uma intervenção militar turca constitui um precedente perigoso que pode conduzir a Europa a excessos com aroma americano para lá das suas fronteiras, ou em casos extremos, mesmo no seio do seu vasto e heterogéneo território.

Podemos um dia receber a factura deste incentivo ao uso da força, sob múltiplas formas e sempre com desfecho imprevisível. Podemos colar-nos, no âmbito da solidariedade a qualquer preço a que obriga o esforço de união, a uma imagem cada vez mais próxima da que George Bush criou para os seus conterrâneos.

E isso não me soa nada porreiro, pá…

[Shark]

terça-feira, 23 de outubro de 2007

CIRCO DA REALIDADE

Aqui há uns tempos escrevi que o caso Maddie McCann se tornou uma espécie de Big Brother. A propósito disso aproveito para resumir aquilo que penso de todo este processo. Primeiro estamos perante um caso que tem de ser tratado com toda a seriedade tendo presente que a vítima, Maddie, tem o papel principal no processo, é em torno desta que se desenrolam os acontecimentos. Apurar a verdade deve ser o único objectivo, sem políticas à mistura. Ora, sabemos que a política é coisa caseira, e neste sentido há interesses que se misturam com a objectividade.

Segundo, a questão que se coloca é porquê Maddie? Isto é, há centenas de crianças desaparecidas que não têm merecido se quer um terço da atenção que tem recebido este caso. Porquê? Primeiro porque se trata de uma criança inglesa e Inglaterra é um país com o qual gostamos de manter afinidades. Segundo porque Maddie é loura e engraçadinha, fica bem em posters. Terceiro porque os pais são médicos e o pai é amigo do Primeiro-Ministro inglês.

De resto há aqui uma componente mediática e um interesse político nacional. Acompanhar a cerimonialidade dos pais e toda a carga simbólica com que estes se apresentam torna-se extremamente chamativo para a imprensa. Ao mesmo tempo que para o governo português é uma excelente forma de fazer esquecer assuntos internos como o caso Casa Pia.

No que concerne à culpabilidade ou não dos pais, preocupa-me mais se, a serem de facto culpados, lhes será imputada a responsabilidade e se serão judicialmente condenados como iguais perante a lei.

[João Ferreira Dias]

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

DA MOTIVAÇÃO, INTENTO E PROPÓSITO

O «Registo Provisório» tendo um propósito de escrita colectiva não prentende encher os leitores de filosofias baratas nem tão-pouco se acha revestido de uma qualquer missão literária ou toma para si a tarefa de ser um oásis na blogosfera. Sabe que há blogues melhores que ele e vive muito bem com isso, sem que tal espelhe qualquer passividade.

É provisório porque compreende que na blogosfera como em tudo na vida as coisas têm essa natureza: provisórias. Por isso mesmo não acredita que durará para sempre aliás nem faz tenção disso. Um bom blogue é como um bom livro: tem um começo forte e que prende a leitura e um final intenso e a clamar por mais.

Além do mais, é um registo provisório porque não existem verdades inabaláveis e ideias irrefutáveis. Provisoriamente acreditamos no que estamos a escrever. Nada mais.

[João Ferreira Dias]