Tendo um já longo e pesado passado de idealismo político tenho notado que, de ano para ano – ou mesmo de dia para dia, é cada vez mais difícil conseguir-se ser verdadeiramente libertário sem atrair atenções negativas, já que o ideal libertário comporta que se defenda acima de tudo uma liberdade de expressão que se encontra cada vez mais ameaçada quer por leis restritivas criadas pelos governos nacionais ou impostas por Bruxelas, quer pelo obscurantismo ideológico que pintou o mundo a preto e branco, dividido em “bons” e “maus”, que resulta em que os libertários a sério – que defendem uma liberdade de opinião e pensamento absoluta para todos – sejam acusados umas vezes de “fascistas” e outras de “comunistas”, dependendo do alinhamento político (divisão direita/esquerda) de quem discorda com determinado ponto de vista.
No exemplo português temos cada vez mais decisões governamentais que são aprovadas à margem da opinião popular (os casos mais recentes são a Flexisegurança e o Tratado Europeu), temos uma entidade reguladora da comunicação social – coisa que não me parece propriamente democrática, e nas universidades, jotas políticas e colunas de opinião dos jornais testemunhamos aquilo a que Joaquim Letria em tempos chamou de “auto censura”, em que determinadas opiniões não são propositadamente tornadas publicas pelos seus autores com o receio de parecer mal ou de suscitar uma reacção negativa por parte dos professores, editores ou mesmo de determinado sector público organizado em algum lobby.
Já nem é necessária uma polícia política: actualmente as pessoas censuram-se a si mesmas de modo a evitar complicações. E quando não o fazem, acabam por ceder a pressões dos próprios familiares, cônjuges ou amigos mais chegados.
Será que actualmente testemunharíamos novamente, como aconteceu no passado, a uma defesa acérrima por parte do libertário Noam Chomsky à liberdade de expressão académica de Robert Faurisson (revisionista do Holocausto)?
Será que hoje em dia para ser democrático e libertário é necessário ser intolerante para com pontos de vista que não nos agradam, tornando-se os democratas em ditadores? Em pleno século XXI ainda temos direita que ache que os comunistas são todos maus e esquerda que ache que os outros que discordam dela são todos fascistas e, portanto, maléficos por natureza?
À medida em que as sociedades se tornam cada vez mais controladas e autoritárias, não se tratando já duma questão de capitalismo versus comunismo e nem sequer de esquerda versus direita mas tão só de cidadãos que defendem a liberdade e de Estados que cada vez mais a tentam negar, tudo mui democraticamente e para segurança da população em geral, não seria já altura de ultrapassarmos certos dogmas que nos forçam a ignorar os outros seres humanos tal como são?
Eu sinto na pele que cada vez mais é difícil manter-se fiel a um ideal libertário quando todos em nosso redor, não só o Estado, se escudam em superioridades morais abstractas que os tornam a eles numa autêntica polícia política autoritária, acusando e atacando qualquer um que recuse fazer parte do rebanho politicamente correcto, tudo o que não seja preto ou branco por natureza é pintado à força de modo a caber no ambiente totalitário actual, mais auto infligido que imposto – uma vez que este ambiente se foi criando tão lentamente, mas tão lentamente, que mal demos por ele… mas agora afecta-nos a todos.
Ainda vamos sobrevivendo e resistindo, mas até quando?
[Flávio Gonçalves]
5 reclamações:
Excelente texto. Parece existir sempre algo mais importante do que a liberdade do homem. É a aceitação da imperfeição que permite a liberdade absoluta e não a eterna divisão em bom/mau que condiciona o pensamento e torna-o parcial. As pessoas baseiam-se em perceber primeiro onde está «o lado certo». As tais morais obscuras... Cumps!
Não vais arranjar muitos amigos com esse discurso, meu parceiro... :-)
Mas um idealista libertário não necessita de certos apoios ou coligações.
Paciência, Flávio Gonçalves, mas a minha "falta de visão libertária" não chega à compreensão de um libertarianismo conotado com a extrema-direita fascista e neo-nazi.
Isso não é libertarianismo nem anarquismo, nem minarquismo, é qualquer outra coisa disfarçada.
Claro que estou a falar na sua participação em blogs neo-nazis e nacionalistas que não cheguei a compreender se eram, simplesmente, inocentes, libertárias ou coniventes.
Não se pode confundir as teorias libertárias com o "laissez faire, leissez passer" de mão erguida, seja ela nazi ou comunista. Não podemos confundir a defesa da liberdade de expressão com a apologia destas teorias.
Talvez seja altura de explicar que a minha participação no VoxBlogs, excelente projecto [JFD, obrigado, o projecto resultou, contrariamente ao que pensas, cá por mim tive muita, mesmo muita gente a quem enviar os pdf's semanalmente, a pedido expresso - e eu até fiquei com o "3º lugar em postagens", creio...], terminou precisamente pela participação de algumas pessoas que não considero serem democratas [se esta definição cabe em espartilhos pseudo-libertários].
Conhecendo o JFD e mais algus participantes [um deles, pelo menos, verdadeiramente libertário e anarco-capitalista], creio tratar-se este espaço de um dos que quero conhecer como verdadeiramente democrata ou, no mínimo, com pleno reconhecimento da igualdade entre as pessoas sem o mínimo laivo de "raças", "credos", ou "purismos" disfarçados de direito à liberdade de expressão.
Talvez estas minhas palavras caiam mal mas seria bom você esclarecer qual a sua posição acerca destes assuntos, de forma descomplexada e aberta, para que possamos interpretar os seus textos sem perigo de engano.
Se quiser, claro.
Peço desculpa pelo incómodo.
Caro shark, infelizmente parece que será a minha sina ainda por muito tempo ser acusado de "comunista" pela direita e de "fascista" pela esquerda, são preços a pagar por nunca ter aprendido nem a calar nem a obedecer quando me mandam.
Caro CJT, responderei mais longamente ao seu comentário, embora lamente saber que abandonou o projecto da VoxBlogs por minha causa, aliás quando fui convidado para o projecto fiquei um tanto ou quanto surpreso e calculei que eventualmente algo do género pudesse ocorrer.
A pluralidade do projecto reflectia a sua qualidade democrática, espero que tal não ocorra novamente, logo que possa responderei com mais vagar (estou no trabalho).
Bem, cá está, a jeito de apresentação deixe-me apenas referir que a menção ao "longo e pesado passado" se referia exactamente a que desde a mais tenra idade - a partir dos 14/15 anos - me envolvi na extrema-esquerda e posteriormente na extrema-direita e que foram as minhas vivências nas duas que me despertaram o interesse pelo anarquismo/pensamento libertário: fui dos extremos progressivamente para a democracia, e creio que o men pensamento e postura antagónica - provocatória até - advém daí.
Ora bem, creio que o problema reside aqui precisamente na sua frase “Não podemos confundir a defesa da liberdade de expressão com a apologia destas teorias.” Discordo completamente desta frase, a liberdade de expressão ou existe ou não existe, não deve ser regulada, as pessoas devem ouvir e decidir por si mesmas, devem ouvir os fascistas e os comunistas, raciocinar e decidir por si mesmas, isso sim é uma verdadeira democracia (que aliás existe em Espanha, e nunca afectou essa democracia, diria até que essa política espanhola que considera o fascismo como outra ideologia qualquer tem como resultado directo que a extrema-direita não vá parar às primeiras páginas dos jornais, como tanto acontece por cá).
No meio anarquista já muitas vezes ouvi essa discussão: deveremos nós, tolerantes, tolerar os intolerantes? Se sim, será que eles um dia nos calam? Se não, mas assim não estamos nós a ser intolerantes? É um pau com dois bicos, mas eu vou preferindo conviver e falar com toda a gente que aceita falar comigo, portanto defendo que os fachos e os nazos têm o mesmo direito à liberdade de expressão que toda a gente. Ou citando o Ted Nugent, “Claro que temos de ter liberdade de expressão, senão como íamos saber quem são os idiotas?”.
Eu creio que o meu problema é ser democrata demais até. E poderá confirmar que abandonei em muitos maus termos um desses blogs, precisamente por me considerarem um anarquista e um antifascista – uma vez mais quando me convidaram para participar no blog em causa aceitei de boa fé, acabou-se a colaboração quando me começaram a atacar pessoalmente e a chamar isso de “discussão” e “crítica política” (que não era, eram ataques pessoais flagrantes, como se ser chamado de antifascista fosse algum insulto para mim).
Eu sou correspondente da agência noticiosa africana Mathaba News Agency, pode aceder em www.mathaba.net à página de autores, ler o meu currículo (que inclui trabalho voluntário com ONG que defendem os direitos das minorias, com estatuto de consultoras na ONU). Talvez lhe agrade o meu artigo “Talking about a revolution” que trata exactamente da questão racial e do seu aproveitamento. Eu sou o que está à vista, garanto-lhe que sou de esquerda e libertário (mais propriamente eco-anarquista) e que o Nacional-Anarquismo do qual sou partidário nada tem de preconceituoso ou antidemocrático.
Espero que não se sinta incomodado com a minha resposta, e se é verdade que vou colaborando com pessoas que chamam de “fascistas” também é verdade que colaboro e tenho amizades com pessoas que são “antifascistas” e comunistas, não lhes importa as etiquetas que me colam. De resto, creio que seria benéfico um encontro pessoal – talvez um jantar de ex VoxBloggers?
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